O sentimento de que há quase tudo para se fazer é uma das principais sensações que eu acho que quem vive num país que tem menos de quatro décadas sente. Essa sensação é, ora boa — pois o trabalho de uma pessoa pode fzer bem mais sentido e ser muito mais singificativo do que num lugar em qut tudo já está acertador, ora desanimadora — pois tudo ainda está meio fora do lugar.
Eu não faço parte dessa realidade, mas vivi em Angola e sempre me impressionava com a intensidade das transformações das coisas e com a energia concentrada que havia em Luand. E sempre gostava muito dessa sensação.
Hoje li um artigo no Novo Jornal (de Angola) sobre a independência de 11 de nevembro de 1975 que acho que tem a ver com isso.
Uma geração sem rumo
Quando foi proposto na reunião do conselho de redacção o tema “Geração pós 11 de Novembro”, confesso que senti de imediato uma grande afinidade com otema. Uma oportunidade única para falar dos meus anseios, receios e desilusões, e mesmo decepções. Afinal, faço parte desta geração, que trinta e quatro anos após Angola se tornar um país independente, constata que muitas das metas estabelecidas estão longe de se concretizar. Nasci no longínquo ano de 1978, portanto, quase três anos após Manguxi ter declarado Angola um Estado Independente e Soberano.
Posso dizer que ainda apanhei a euforia de um país acabado de nascer. Cresci com o sentimento de fazer parte de uma sociedade com um futuro brilhante e com muito para dar e,como tal, teria de me esforçar o máximo para integrar um grande projecto que se chama Angola. O tempo passou e com ele grande parte dos sonhos deste grande projecto.
Nós, os nascidos após o 11 de Novembro de 1975, crescemos a ouvir histórias bonitas de um tempo que não vivemos, de uma vitória alcançada pelo povo angolano e que teve como missão principal tirar o país das mãos dos algozes e devolvê-los aos verdadeiros donos da terra, e isto obrigava a sacrifício da parte do povo. Lembro-me como se fosse hoje dos comícios que nós “pioneiros angolanos”, reunidos em torno de uma organização de cariz patriota tínhamos de estar cedo nas escolas, numa amostra de disciplina, com os nossos fardamentos impecavelmente engomados pelas nossas mães, porque tínhamos de estar irrepreensíveis no dia seguinte para o comício no 1º de Maio, onde eram festejadas as efemérides.
Naqueles tempos os comícios eram muito concorridos, era bonito de se ver, estávamos todos empenhados em fazer o melhor. Quão orgulhosos ficávamos, apesar dos nossos tenros seis, sete anos, de bandeira em punho a desfilar junto ao palanque, entoando músicas de propaganda, e driblando os passos ensaiados no pátio da escola. No final chegava a recompensa: pão com salsicha e sumo.
Era o suficiente para mostrarmos um sorriso largo, afinal não era qualquer um que comia pão com salsicha e bebia sumo importado, naquele tempo. Esses tempos que já passaram trazem consigo ainda a lembrança de um tempo onde a organização e o respeito pelos mais velhos faziam parte do projecto de uma Angola nova. Estavam a ser criados como homens novos para um país acabado de nascer, tal qual Augusto Ngangula, o menino que preferiu a morte a mostrar onde ficava a base guerrilheira do MPLA. Que orgulho nós tínhamos por termos nascido neste grande e maravilhoso país.
Hoje, esta geração que cresceu na esperança de um futuro melhor está completamente decepcionada e triste com o rumo que este grande projecto tomou. Sobre os valores que nortearam esta data importante para o povo angolano poucos se lembram, e uns preferem não lembrar. Hoje vejo com tristeza no rosto de jovens da minha geração a desi-
lusão com o rumo que as coisas tomaram, e nos mais velhos o saudosismo de um tempo em que não eram donos do seu próprio destino. O projecto de um homem novo foi engavetado, e a juventude anda à deriva.
Como filha de um patriota que dedicou grande parte da sua vida às lutas pela independência deste grande país, tive ou tenho a felicidade de conhecer as linhas com que foram traçadas a independência de Angola, e os sacrifícios que foram feitos por este povo mártir para que fosse possível obter a liberdade tão ansiada. O 11 de Novembro de 1975 que deveria significar o orgulho para nós, lembra-nos hoje um projecto que começou bem, mas que a dada altura se perdeu
e que tem trazido graves consequências para o país. O projecto se perdeu e com ele os seus valores. Parece não interessar a ninguém hoje que os jovens tenham o 11 de Novembro como uma data de referência, pois a bagagem que têm sobre o que significou este dia é mesmo nula. Quem são os culpados, quem, assume a culpa? Parece que afinal somos mesmo uma geração à rasca.
ANA MARGOSO